Novo Panorama IEPS analisa entraves e caminhos da inovação em saúde no Brasil

Segundo pesquisa do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde, em parceria com a Umane, soluções para o setor são adotadas sem entender problemas

A inovação em saúde ganha relevância em meio à necessidade de o setor se adaptar e enfrentar as pressões e os desafios impostos pela pandemia de Covid-19 no curto e médio prazos. Com o objetivo de contribuir para esse debate, a nova edição do Panorama IEPS, produzida pelos pesquisadores do instituto Arthur Aguillar, Fernanda Leal, Helyn Thami e Victor Nobre em parceria com a Umane, analisa os principais entraves e possíveis caminhos para a realização de inovação em saúde no Brasil. 

O Brasil não está bem posicionado em avaliações globais de inovação. Segundo dados do Índice Global de Inovação (IGI), o País ocupa a 64ª posição entre 126 países avaliados. Mesmo no nível regional, o Brasil está quase 20 posições atrás do Chile. Limitações de orçamento, aumento da demanda e demais problemas na gestão dos sistemas de atendimento são entraves já conhecidos. No entanto, a partir de entrevistas com atores do terceiro setor e de governos que aplicam inovação em saúde no setor público, a pesquisa também diagnosticou o desafio em torno do entendimento correto do próprio conceito de “inovação”.

De acordo com o Manual de Oslo (2013), “inovação é um produto, processo ou serviço que, quando aplicado, gera novos resultados na direção de solução de problemas relevantes”. 

O Panorama IEPS alerta que o entendimento incorreto de “inovação” gera soluções que não entendem os problemas que precisam ser resolvidos. Uma delas, de acordo com o estudo, consiste em aplicar inovação a partir, básica e exclusivamente, do uso de alta tecnologia, como aplicativos e ferramentas de inteligência artificial, quando o processo pode ser também centrado na gestão de equipes e pessoas.

Uma consequência desse erro estratégico é o fato de a inovação no Brasil ter CEP e estar concentrada nas regiões sul e, principalmente, sudeste, com centros e instituições de excelência e capacitados para a gestão de processos de inovação a partir da tecnologia. No entanto, inovações focadas nas práticas de gestão, em métodos do planejamento e em gestão participativa podem ser uma alternativa para superar a defasagem existente nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, o que ressignificaria o conceito “inovação” em localidades com menos recursos. 

Para solucionar esses problemas, o estudo destaca que é preciso, entre outras medidas: 

  • criar conexão entre inovação e problemas da vida real;
  • ter uma abordagem sistemática à qualidade e mensuração de resultados no sistema; 
  • reconhecer e normatizar inovações nascidas das práticas cotidianas. 

Além disso, o relatório indica os pontos críticos do SUS, onde esforços de inovação devem ser concentrados em: 

  • aprimorar a interoperabilidade de sistemas de informação e a qualificação da coleta e da transmissão de dados nos sistemas existentes; 
  • capacitar adequadamente os profissionais, sobretudo para a Atenção Primária; 
  • gerir filas e tempos de espera
  • captar a experiência e a satisfação dos usuários como parte da rotina de gestão.

Apesar de ter o trabalho em rede como diretriz básica, o Brasil ainda não encontrou maneiras de inovação, conclui o Panorama IEPS. O objetivo do documento é trazer uma perspectiva processual e democrática de inovação, além de destacar desafios e caminhos possíveis de superação de gargalos, para que gestores da saúde pública brasileira possam criar um ambiente propício para a inovação.

Apesar dos desafios, há, no Brasil, oportunidades de inovação em saúde. Além do potencial de desenvolvimento científico e tecnológico que existe desde a concepção do sistema, o Sistema Único de Saúde (SUS) tem estrutura para processos inovadores na gestão da saúde dos municípios brasileiros. Segundo os pesquisadores do IEPS, isso viabilizaria a construção combinada de um sistema de inovação e de um sistema de bem-estar social.

Leia o Panorama IEPS na íntegra aqui