O esporte é maior do que as bets

O Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), junto com mais 22 organizações que compõem a Coalizão Brasil Contra Bets, se posiciona contra o manifesto “O fim do futebol”, assinado por clubes e entidades ligadas ao futebol brasileiro e divulgado na última quinta-feira (17/09).


Leia a nota completa: 

Os clubes brasileiros afirmaram nesta quinta-feira (17/09), em manifesto, que o fim das bets representaria o fim do futebol e que o torcedor não pode pagar essa conta. Concordamos com uma parte dessa afirmação: o torcedor não pode pagar essa conta. O problema é que ele já está pagando, todos os dias, com o próprio salário, com o endividamento, com a falta de dinheiro para despesas essenciais, com o sofrimento psíquico e, em muitos casos, com a desestruturação de sua vida familiar.

O Futebol existe no Brasil desde o final do século 19. Times patrocinados por casas de apostas são um fenômeno recente e só se tornaram relevantes depois da regulamentação do setor, a partir de 2024. Se o futebol precisasse de bets para existir, não teria existido antes.

As receitas provenientes das bets não surgem do nada. Elas são formadas pelo dinheiro perdido pelos apostadores, muitos deles atraídos por promessas de ganho fácil, publicidade massiva e associações emocionais com clubes, campeonatos e ídolos. Quando uma empresa de apostas ocupa a camisa de um time, as placas do estádio, as transmissões e as redes sociais dos clubes, ela transforma a paixão pelo futebol em instrumento de captação de consumidores.

O próprio manifesto dos clubes brasileiros reconhece os “desafios” da expansão das apostas e os “impactos sociais, especialmente sobre as pessoas mais vulneráveis”¹. Os números mostram a escala desse impacto: o prejuízo é de R$ 31 bilhões à saúde². Os atendimentos do SUS por jogo patológico e transtornos relacionados a apostas cresceram 104% entre 2018 e maio de 2025³. Diante da procura, o sistema teve que ampliar a capacidade de teleatendimento especializado para até 100 mil atendimentos por mês⁴. E mais de 1 milhão de pessoas já pediram para se autoexcluir de todas as plataformas de apostas licenciadas no país, sendo que, destas, 35% informou ter feito isso especificamente por perda de controle sobre as apostas⁴.

A opinião pública já decidiu o que pensa disso: 68% dos brasileiros defendem a proibição do patrocínio de casas de apostas no futebol, porque consideram que ele prejudica torcedores e famílias⁵.

Nós, da Coalizão Brasil Contra Bets, nos somamos às pessoas que querem impedir tanto sofrimento. Somos 22 organizações da sociedade civil que trabalham para aprovar o Projeto de Lei Brasil Contra Bets (PL 2470/26), que restringe o patrocínio, a publicidade e a propaganda de jogos e apostas online.

O PL Brasil Contra Bets uniu a esquerda e a direita no Congresso Nacional em um consenso suprapartidário inédito em torno de uma melhor regulação das bets, representando um recorde histórico de 85 signatários na Câmara – o maior número de coautores em um projeto de lei apresentado desde 2003.

A Coalizão reconhece que clubes, federações, projetos sociais, categorias de base e o futebol feminino passaram a contar com receitas provenientes dessas empresas. Essa dependência, porém, foi construída em poucos anos e não pode ser apresentada como inevitável ou irreversível. Tampouco contratos privados podem impedir que o Estado adote novas medidas quando estão em jogo a saúde pública, a defesa do consumidor e a proteção de crianças e adolescentes.

Uma transição responsável deve ser discutida para que os clubes possam diversificar suas receitas e para que os segmentos mais vulneráveis do esporte não sejam desamparados. Essa discussão deve envolver governo, Congresso, entidades esportivas, organizações da sociedade civil e demais agentes econômicos. O que não se pode admitir é que a necessidade de financiamento do futebol seja usada para perpetuar um modelo sustentado pelas perdas dos torcedores.

A mobilização social existe, assim como o apoio parlamentar. Agora a bola está com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, para levar a proposta à votação: aprovar o PL Brasil Contra Bets é a chance de devolver ao futebol o que ele sempre foi: um esporte que promove saúde.

A Premier League inglesa já tirou apostas da frente da camisa a partir da temporada 2026/27, sendo uma decisão fechada com os próprios clubes em 2023. Marcas de tecnologia e serviços financeiros ocuparam o espaço deixado. O campeonato continuou, os clubes continuaram, nada “acabou”⁶ .

O que ameaça acabar não é o futebol. É um modelo de patrocínio que decidiu se pendurar na saúde de quem torce, que lucra em cima da dor. Junte-se às mais de 126 mil pessoas que já se manifestaram em apoio ao PL Brasil Contra Bets. Assine a petição: brasilcontrabets.com

Referências

1. Manifesto “O Fim do Futebol Brasileiro”, publicado em 17 de setembro de 2026 nos perfis oficiais de Flamengo, Palmeiras, Corinthians, Santos, São Paulo, Botafogo, Fluminense, Vasco, Cruzeiro, Federação Paulista de Futebol (FPF) e Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (FERJ).
2. Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS). Dossiê “A Saúde dos Brasileiros em Jogo”. 2025.
3. Ministério da Saúde. Mais de 1 milhão de brasileiros se autoexcluíram das plataformas de jogos e apostas. Agência Gov, set. 2026.
4. Ministério da Saúde. Meu SUS Digital oferecerá até 100 mil teleatendimentos mensais para pessoas com necessidades relacionadas a jogos e apostas. Agência Gov, 04 ago. 2026.
5. Ipsos. Brasileiros associam bets a riscos para o futebol e defendem restrições aos patrocínios. Pesquisa Ipsos-Ipec em parceria com More in Common Brasil, 2026.
6. Premier League. Comunicado oficial da liga sobre a retirada de patrocínio de apostas da parte frontal das camisas, abril de 2023 — decisão coletiva dos clubes, em vigor a partir da temporada 2026/27.