Jornada avança para etapa prática com debates e dinâmicas de análise e negociação política
Foto: Ana Patrícia Almeida/IEPS
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O primeiro dia de imersão da Jornada de Lideranças pela Regionalização da Saúde, realizada nesta sexta-feira (29/05), em São Paulo, marcou o início das atividades práticas dos comitês estaduais participantes. A programação contou com debates, compartilhamento de casos de sucesso, e exercícios de liderança e tomada de decisão. O evento é uma iniciativa do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) em parceria com a Umane e a Fundação Lemann.

Na primeira fala do dia, Miguel Lago, diretor-executivo do IEPS, destacou a capacidade de resposta do sistema de saúde brasileiro em contextos de grande necessidade e diante de desafios complexos, como a pandemia e a escassez de recursos. Para ele, é essa disposição de resposta que sustenta o SUS, um sistema universal de saúde em um país com o tamanho e a complexidade do Brasil.

Jornada avança para etapa prática com debates e dinâmicas de análise e negociação política

Miguel Lago, diretor executivo do IEPS. Foto: Ana Patrícia Almeida/IEPS

“Isso só acontece por causa do engajamento dos profissionais de saúde e dos gestores públicos, e a regionalização é justamente o que permite que ela continue existindo, mesmo em um contexto de recursos limitados. É uma agenda que os estados já fazem e podem fazer ainda melhor, com mais eficiência e mais qualidade na entrega dos serviços de saúde”, afirmou Lago. 

Escuta ativa e investimento na Atenção Primária

Em seguida, Gonzalo Vecina, médico sanitarista e professor da Faculdade de Saúde Pública da USP, destacou a importância de uma governança conjunta, liderada pelo Ministério da Saúde, e da retomada da atenção às demandas dos territórios na formulação das políticas públicas de saúde.

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Gonzalo Vecina, médico sanitarista e professor da Faculdade de Saúde Pública da USP. Foto: Ana Patrícia Almeida/IEPS

“A oferta dos serviços de saúde deve ser um resultado da demanda. Um SUS forte começa pela escuta. Precisamos olhar para a atenção primária, fortalecer a prevenção e entender que sem isso não vamos melhorar o SUS, o maior instrumento de construção de igualdade social do nosso país”, enfatizou. 

Cooperação e financiamento

Priscilla Perdicaris, especialista em saúde e facilitadora da Jornada, compartilhou a experiência de regionalização do estado de São Paulo e destacou a importância da cooperação para o fortalecimento do SUS. Segundo ela, na experiência paulista, colocar todos os atores na mesma mesa transformou oficinas técnicas em espaços reais de decisão política.

“É a cooperação entre estado, municípios, prestadores e governo federal que reduz a fragmentação e melhora o cuidado. Sem cooperação, o SUS se fragmenta e perde capacidade de responder de forma coordenada às necessidades da população”, afirmou.

O financiamento, que apareceu como uma preocupação recorrente ao longo da programação, foi comentado por Leonardo Shibata, especialista em saúde do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Em sua fala, ele destacou os desafios impostos pelo envelhecimento populacional, pelo aumento das doenças crônicas e pelo encarecimento das tecnologias em saúde.

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Leonardo Shibata, especialista em saúde do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Foto: Ana Patrícia Almeida/IEPS

“Os estados estão conseguindo investir de 3% a 4% do seu orçamento na saúde e isso é dedicado apenas a fazer a máquina girar. Existe pouco espaço para fazer novos investimentos”, explicou Shibata, antes de compartilhar projetos desenvolvidos no Ceará, em São Paulo e na Bahia.

O especialista também ressaltou que ampliar a oferta de serviços exige não apenas definição de prioridades, mas capacidade de execução diante de entraves recorrentes da gestão pública, como dificuldades em obras, fixação de profissionais de saúde e a pressão do gasto corrente que, segundo ele, raramente é levado em consideração quando um projeto de investimento é iniciado.

Atividades práticas dos comitês

As atividades práticas dos comitês estaduais colocaram os participantes diante de um dos núcleos mais desafiadores da regionalização: a necessidade de negociar em contextos de pressão, conflito e interesses divergentes. Em uma das dinâmicas do dia, os grupos simularam uma crise regional e precisaram decidir qual município receberia um hospital regional, em um cenário marcado por restrições orçamentárias, critérios técnicos e disputas políticas. 

“A dinâmica buscou exercitar competências centrais para o processo de regionalização, como leitura de contexto, mapeamento de interesses e construção de acordos viáveis”, destacou Agatha Eleone, gerente de políticas públicas do IEPS e uma das idealizadoras da Jornada de Lideranças. 

Jornada avança para etapa prática com debates e dinâmicas de análise e negociação política

Foto: Ana Patrícia Almeida/IEPS

Na sequência, os participantes trabalharam o mapeamento de atores e a definição das arenas de poder e influência político-institucional. A atividade reforçou que, na regionalização, o impasse raramente é apenas técnico: identificar aliados, antecipar resistências e compreender quem pode bloquear ou sustentar um acordo é parte decisiva da pactuação.

“A principal mensagem foi que negociar sem clareza sobre poder, interesses e arenas de decisão é negociar no escuro. Na prática, o desafio costuma estar em quem perde poder, quem assume o custo político e quem precisa sustentar o acordo ao longo do tempo”, afirmou Eleone. 

Jogo cooperativo e inovação em saúde pública

O in.spire SUS, jogo conduzido por representantes InovaHC, simulou uma crise sanitária na região fictícia dos Seis Vales, marcada por hospitais sobrecarregados, falta de profissionais e escassez de recursos. Na dinâmica, os participantes assumiram o papel de gestores municipais e precisaram negociar, compartilhar experiências e distribuir de forma estratégica profissionais e equipamentos para melhorar os indicadores de saúde da região.

A proposta foi estimular a colaboração e trabalho em rede, reforçando  que a regionalização depende de colaboração, escuta ativa, comunicação clara e construção de soluções conjuntas, já que nenhum município consegue responder sozinho a problemas complexos do sistema de saúde.

  • Foto: Ana Patricia Almeida/IEPS
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