Violência armada aumenta demanda por saúde mental no SUS, mas exposição frequente dificulta acesso ao serviço
Fernando Frazão/Agência Brasil
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Dois ou três episódios de violência armada no Rio de Janeiro, por conflitos entre facções ou operações policiais, estão associados a uma aumento de 5 e 8% nas consultas de saúde mental no SUS, respectivamente. Mas a frequência contínua de tiroteios pode dificultar o acesso aos serviços: cinco ou mais episódios por mês reduzem 7% das consultas. É isso que mostra o estudo The impacts of neighbourhood violence on mental health consultations among residents of low-income neighbourhoods in Rio de Janeiro: a retrospective cohort analysis” publicado pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) no International Journal of Mental Health Systems.

Segundo a pesquisa, a exposição contínua pode dificultar o deslocamento da população, interromper a rotina dos serviços e reduzir a capacidade de acesso ao atendimento, mesmo ampliando o sofrimento psicológico e a necessidade de cuidado. Para Rudi Rocha, diretor de Pesquisa do IEPS e professor da FGV EAESP, ampliar a oferta de serviços em áreas marcadas pela violência é fundamental, mas não suficiente. 

“Os resultados mostram que a violência opera em duas direções: aumenta a necessidade de cuidado em saúde mental, mas, quando se torna recorrente, também impede que as pessoas cheguem aos serviços. Isso significa que, justamente nos territórios mais afetados, parte da demanda pode permanecer invisível para o sistema de saúde. É preciso garantir que esses serviços consigam funcionar e que a população consiga acessá-los com segurança”, destaca.

A pesquisa analisou dados de 1.358.943 usuários da Atenção Primária à Saúde no Rio de Janeiro entre janeiro de 2010 e dezembro de 2016. Os registros de saúde foram combinados com informações socioeconômicas, tiroteios entre facções reportados pelo Disque-Denúncia e operações policiais mapeadas pelo Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (Geni/UFF).

O estudo identificou 19.868 eventos violentos no período analisado, dos quais 70,4% estavam relacionados a operações policiais e 29,6% a conflitos entre facções. Para a análise, os usuários foram classificados como expostos à violência quando um evento ocorreu em um raio de até 250 metros da unidade de saúde frequentada.

Impacto na saúde mental se prolonga por vários meses após exposição à violência

O estudo mostra que o aumento nas consultas de saúde mental não ocorre apenas imediatamente após a exposição moderada à violência, mas também pode ser observado de dois a quatro meses depois. A exposição a episódios violentos atua como um estressor agudo e contribui para sofrimento psicológico, ansiedade, sintomas depressivos e respostas relacionadas ao trauma.

Filipe Asth, psicólogo e especialista em relações institucionais do IEPS, destaca que a violência impacta de diferentes formas a população carioca, especialmente grupos vulnerabilizados, e causa impactos ao longo prazo. 

“A violência armada, especialmente quando atravessada pela atuação do Estado e pelas desigualdades raciais e territoriais, produz efeitos que vão muito além das lesões físicas. Ela gera sofrimento psicossocial, intensifica o medo, restringe a circulação nos territórios e compromete o acesso a direitos fundamentais, incluindo o cuidado em saúde. Seus impactos recaem de forma desigual sobre grupos historicamente vulnerabilizados, como pessoas negras, mulheres e jovens, que convivem cotidianamente com a insegurança e com a ameaça da violência”, afirma.

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