Apostas online, clima e saúde mental: as dez propostas da Agenda Mais SUS para o próximo ciclo de governos
Ouça o texto

O Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) e a Umane lançam nesta terça-feira (04/08) a Agenda Mais SUS 2027-2030, uma publicação que reúne recomendações técnicas e factíveis para orientar candidaturas, governos de transição, parlamentares e gestores públicos no fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS) no próximo ciclo do governo federal e dos governos estaduais. O documento também apresenta um balanço dos últimos anos e uma análise de conjuntura sobre o SUS.

“As políticas para o SUS avançaram nos últimos anos, mas o sistema opera sob uma pressão cada vez maior. Estamos em ano eleitoral, mas esta Agenda trata sobre os quatro anos depois das eleições. Nela, apontamos o que trava o SUS hoje, do transporte de um paciente até uma consulta até a publicidade de apostas que chega ao celular de um adolescente, para que o próximo governo, seja ele qual for, saiba por onde começar”, destacou Rebeca Freitas, diretora de relações institucionais do IEPS. 

Além dos problemas crônicos, como a escassez de profissionais em áreas vulneráveis e a baixa troca de informações entre sistemas e níveis de atenção à saúde, o SUS enfrenta novas questões e desafios que nascem em outras áreas, mas que impactam diretamente a saúde pública, como a expansão das apostas online e do jogo problemático e as mudanças climáticas. 

“A Agenda Mais SUS parte do princípio de que fortalecer o sistema de saúde exige planejamento de longo prazo e decisões orientadas por evidências. Ao mesmo tempo, os novos desafios de saúde pública exigem um entendimento mais ágil dos temas emergentes. Ao combinar diagnósticos e propostas concretas para os principais desafios do Brasil hoje, queremos contribuir para que o debate eleitoral avance da identificação dos desafios para a construção de soluções que ampliem a equidade e a capacidade de resposta do SUS, bem como a promoção de uma sociedade mais saudável”, afirma Thais Junqueira, superintendente geral da Umane.

Ambiente digital, apostas online e os novos desafios para as políticas de saúde mental

A proibição da publicidade de apostas online e a restrição dos jogos de maior risco é uma das propostas defendidas pela Agenda. Em 2025, 10,9 milhões de brasileiros foram classificados como jogadores de risco ou com jogo problemático, padrão associado a um custo social anual estimado em R$38,8 bilhões.

Segundo o documento, a próxima gestão do Governo Federal deve avançar na regulação e na responsabilização ativa das operadoras, enquanto os Estados devem incorporar o cuidado ao jogo problemático na rede de saúde mental e fiscalizar as restrições publicitárias em eventos estaduais ou municipais. 

As apostas online também impõem riscos para crianças e adolescentes. De acordo com dados presentes na Agenda Mais SUS, 53% das crianças e adolescentes já estão expostas à publicidade de apostas online. A regulação dos jogos de apostas é parte de uma demanda mais ampla de regulação sanitária das plataformas digitais, focada no bem-estar e na saúde mental da infância e da juventude brasileira. 

“As apostas são um dos comportamentos nocivos ao qual esse público está exposto nas plataformas digitais. Precisamos avançar em uma regulamentação concreta das obrigações do ECA Digital e continuar o processo de fortalecimento das nossas instituições, como a ANPD e o CGI.br, além de implementar diretrizes de identificação e cuidado em saúde mental voltadas a esse público na Atenção Primária e Programa Saúde na Escola, por exemplo”, destaca Julia Pereira, gerente de relações institucionais do IEPS e uma das responsáveis pelo projeto. 

Emergências sanitárias e mudanças climáticas

A preparação e resposta a emergências sanitárias, como foi a pandemia de covid-19, também estão entre as propostas da Agenda, que defende a criação de um marco normativo permanente definindo critérios técnicos para declarar, escalonar e encerrar emergências sanitárias. Um estudo citado no documento estima que ao menos 120 mil das quase 670 mil mortes pela covid-19 poderiam ter sido evitadas com uma resposta coordenada.

Apostas online, clima e saúde mental: as dez propostas da Agenda Mais SUS para o próximo ciclo de governos

Ao menos 120 mil das quase 670 mil mortes pela covid-19 poderiam ter sido evitadas com uma resposta coordenada. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

“Não podemos depender de uma nova lei emergencial toda vez que uma crise sanitária aparece. Precisamos de um marco normativo, com critérios técnicos claros para declarar e encerrar uma emergência, e isso vale tanto para uma pandemia quanto para eventos climáticos extremos, que já atingem diretamente hospitais e unidades de saúde, se considerarmos que cerca de 30% dos estabelecimentos do SUS estão localizados em áreas de alto risco”, destaca Pereira.

A Agenda também traz propostas para mitigar os impactos das mudanças climáticas no sistema de saúde, como os vistos nas enchentes do Rio Grande do Sul em 2024. Além do número expressivo de estabelecimentos e leitos próximos a áreas de alto risco geológico, os sistemas de monitoramento climático, geológico e de saúde ainda operam de forma isolada. 

O documento defende a necessidade de integração de dados entre Ministério da Saúde, MCTI, Serviço Geológico do Brasil e Defesa Civil para incorporar mapas de risco ao planejamento da rede, além do desenvolvimento de modelos preditivos e sistemas de alerta precoce. 

Profissionais e infraestrutura digital: dois gargalos estruturais do SUS

Além dos desafios emergentes, a Agenda também mira em problemas estruturais que o SUS carrega há décadas. Um deles é a falta de profissionais de saúde em áreas vulneráveis: no Norte e no Nordeste, 82% dos municípios não chegavam a ter 1 médico por mil habitantes no SUS em 2023. A proposta é reorientar a formação médica para o território e reorganizar carreiras para fixar profissionais em regiões deficitárias.

O outro é a baixa troca de informações entre sistemas e serviços do SUS. Hoje, apenas 9,3% das UBS compartilham prontuário eletrônico com hospitais, e boa parte da comunicação entre os serviços ainda depende de WhatsApp e telefone. A Agenda defende a integração desses sistemas, maior compartilhamento de informações entre os níveis de atenção e financiamento estável para telessaúde, consolidando a saúde digital como infraestrutura transversal do SUS.

Acesse os documentos:

Agenda Mais SUS 2027-2030: de onde partimos – Balanço 2022–2026 e a Conjuntura para a Saúde
Acesse aqui

Agenda Mais SUS 2027-2030: 10 Propostas para o Futuro da Saúde Pública
Acesse aqui

Palavras-Chaves