Malte Becker: "No Brasil, a comunidade acadêmica é muito mais aberta do que na Europa"
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Malte Becker foi pesquisador visitante no Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) entre outubro e dezembro de 2022. Becker é doutorando em Economia do Desenvolvimento no Kiel Institute For The World Economy, na Alemanha, e pesquisa a saída dos médicos cubanos do programa Mais Médicos, que ocorreu em 2018. Ele atuou em diálogo com a equipe de Pesquisa na sede do IEPS em São Paulo. 

Em entrevista para o IEPS Entrevista, o pesquisador contou que o acesso a dados e pesquisadores brasileiros foi essencial para o projeto que desenvolve no Doutorado. Para ele, estar no Brasil foi uma oportunidade única de acessar informações e contextos que não teria acesso se permanecesse apenas na Alemanha. 

Durante sua temporada no IEPS, Becker destacou o clima coletivo e acolhedor do ambiente organizacional e diz que pode vivenciar um ambiente acadêmico colaborativo com alta qualidade de pesquisa. 

Apaixonado pelo Brasil, ele conta um pouco mais sobre sua relação com o país, as experiências de pesquisa no IEPS  e  a trajetória como pesquisador visitante ao longo de três meses. Confira a entrevista completa:

IEPS: Como começou sua relação com o Brasil e por que você decidiu pesquisar assuntos relacionados ao país?

Malte Becker: Eu visitei o Brasil pela primeira vez em 2009, quando eu tinha 16 anos. Na Alemanha existe o costume dos adolescentes fazerem um ano de intercâmbio e, normalmente, os jovens vão para os Estados Unidos ou outros países da Europa. Eu quis fazer algo diferente e acabei indo para o Brasil, especificamente para São Lourenço, no sul de Minas Gerais. Foi uma experiência ótima e eu decidi que se fosse me dedicar à vida acadêmica, que pesquisaria algo relacionado de alguma forma com o país. Dizem que é sempre bom escolher temas que sejam do seu interesse, então escolhi pesquisar sobre o Brasil para ter sempre uma razão para voltar.

IEPS: Qual o tema da sua pesquisa e de que forma ela está relacionada com o Brasil?

MB: Minha pesquisa tem como foco a saída dos médicos cubanos do programa Mais Médicos, que aconteceu em 2018. Eu estava no país com Stefan Sliwa, um amigo que também estuda esse tema, quando esse processo estava acontecendo e achamos que esse era um fenômeno que precisava ser estudado. Hoje, nós dois pesquisamos o tema e fizemos o estágio no IEPS juntos. 

IEPS: Como você conheceu o IEPS e qual era seu dia-a-dia durante o estágio?

MB: Por causa do tema da pesquisa, eu e Stefan Sliwa entramos em contato com Thomas Hone, um pesquisador da Inglaterra que já havia estudado o programa Mais Médicos. Ele é colaborador do IEPS e nos apresentou o Rudi Rocha, diretor de pesquisa do IEPS.  Rudi se interessou pelo tema e nos convidou para passar três meses no Brasil, colaborando com a pesquisa. Durante os dois primeiros meses no escritório do IEPS em São Paulo, trabalhamos intensamente no projeto, nos dedicando exclusivamente à pesquisa. A partir do terceiro mês nós começamos a viajar pelo Brasil para participar de conferências e apresentar o projeto em eventos da área da Saúde. Fomos para Salvador, onde participamos do Congresso da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO), e Fortaleza. Foram experiências que renderam muita troca e diálogo com outros pesquisadores do Brasil.

Você conversa com mais gente, as pessoas são mais dispostas e interessadas em fazer colaborações e em trabalhar juntas. Muitas pessoas na Europa não sabem como a qualidade de pesquisa no Brasil é alta, os pesquisadores são incríveis, muito inteligentes e fazem projetos super legais. Eu construí pontes para pesquisas futuras e espero voltar logo para o Brasil.

IEPS: Estar no IEPS foi importante para sua formação? 

MB: Com certeza. A equipe do IEPS tem conhecimentos  muito específicos e valiosos como, por exemplo, saber onde e como encontrar os dados necessários para sua pesquisa. Existe um know-how que é muito valioso na área de saúde. Além disso, o instituto tem contatos com outras universidades, então pude conhecer pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e de outras instituições. O ambiente de trabalho é muito harmônico, a equipe é pequena, todo mundo se conhece e  se comunica bem. Você consegue aproveitar o lado mais íntimo, mas também o networking com outras instituições. 

IEPS: De que forma o estágio contribuiu para o desenvolvimento da sua pesquisa? 

MB: Contribuiu muito mais do que eu pensava. Estar em contato com outros pesquisadores, trabalhadores da saúde e pessoas que conhecem diretamente a área de pesquisa faz com que você aprenda coisas que um pesquisador que está na Alemanha nunca saberia. Acho muito importante, principalmente, na área da economia do desenvolvimento, onde se faz muita pesquisa sobre outras regiões, países e culturas. Tem muitas coisas que os dados não te indicam e é sempre necessário ter pelo menos uma ideia sobre o que você está falando ou pesquisando. Durante o congresso da ABRASCO, por exemplo, nós conversamos com pessoas que conheciam bem o contexto, os dados e toda temática da pesquisa, recebemos feedbacks e compartilhamos nossas ideias.  

IEPS: O que você diria para outros pesquisadores que estão pensando em fazer estágio visitante no IEPS?

MB: No Brasil as pessoas são amigáveis, se ajudam, são muito positivas. Esse estilo de viver também se reflete no trabalho acadêmico, a comunidade acadêmica é muito mais aberta do que na Europa. Você conversa com mais gente, as pessoas são mais dispostas e interessadas em fazer colaborações e em trabalhar juntas. Muitas pessoas na Europa não sabem como a qualidade de pesquisa no Brasil é alta, os pesquisadores são incríveis, muito inteligentes e fazem projetos super legais. Eu construí pontes para pesquisas futuras e espero voltar logo para o Brasil. 


O Instituto de Estudos para Políticas de Saúde é um hub de pesquisa e busca consolidar essa vocação através de seu Programa de Pesquisadores Visitantes e Estágios. Pesquisadores de diversos países e universidades podem desenvolver projetos e colaborar com a equipe do IEPS durante períodos específicos.

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